Robertson Frizero

Escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária

O conto e a literatura de narrativa curta é um dos gêneros literários mais famosos e comuns no universo da leitura e da escrita criativa. Outros exemplos deste tipo são a crônica e a fábula. A novela literária está a meio caminho do romance, narrativa longa, e dos demais gêneros de narrativa curta.

Do ponto de vista dos elementos do conto, ele é, em geral, formado pelo narrador, personagens, tempo, espaço, enredo, conflito e desfecho. No que se refere à estrutura, o conto é formado por introdução, desenvolvimento e clímax.

Lápis coloridos - O conto e a escrita de narrativa curta
Imagem Pixehere/Creative Commons

Elementos do conto e da narrativa curta

Não existe uma regra restrita que estabelece quais são os elementos que sempre devem compor um conto. No entanto, alguns elementos são essenciais.

Narrador

O narrador, como o próprio nome sugere, é quem conta a história. Basicamente existem três tipos de narradores: narrador-personagem, narrador-observador e narrador-onisciente.

No primeiro caso, é quando um dos partícipes da estória é quem a conta. Já no segundo, quem relata está de fora e observa os eventos e personagens. No terceiro caso, também é um narrador de fora, mas que conhece todo o universo da narrativa.

Personagens

Os personagens são quem vivenciam a história. Eles não estão restritos aos seres humanos, de modo que qualquer ser que ganha vida e consciência pode ser personagem, sejam eles animais, objetos ou seres imaginários.

Tempo

O tempo das narrativas ficcionais tem, basicamente, duas dimensões: do tempo que transcorre a estória e da época a que se refere.

Normalmente, no conto, o tempo que a narrativa transcorre tende a ser curto, mas não é uma regra. Também se pode explorar qualquer período – seja a antiguidade ou os tempos atuais – em uma narrativa curta.

Espaço

O espaço é o local onde os personagens e a narrativa estão inseridos. No conto, normalmente os cenários onde se passa a estória são poucos e não extensivamente descritos para não alongar o texto.

Enredo

O enredo no conto tem a mesma finalidade que nas demais narrativas, ou seja, serve para estabelecer a ordem dos eventos que serão apresentados.

Há, em suma, três formas de estruturar o desenvolvimento de uma narrativa ficcional curta. A mais conhecida é in media res, quando a história começa a partir de um evento especial na vida do protagonista.

Há também a possibilidade de se apresentar a narrativa em ordem cronológica inversa. Uma terceira opção seria ab initio, que conta desde as circunstâncias do nascimento do protagonista.

Mas esta última é pouco usual no conto, devido a especificidade de se tratar de um texto curto.

Conflito

O conflito na literatura ficcional é o problema a ser enfrentado pelo protagonista. Isso não implica que ele precise ser, necessariamente, resolvido.

É no clímax que o conflito da narrativa se torna mais evidente. É o ponto alto do enredo. Neste momento as partes introdutórias e as que fecharão o texto se conectam, dando sentido uma a outra.

Desfecho

Ao desdobramento da narrativa de ficção dá-se o nome desfecho. Neste momento é que o problema pode ser resolvido ou não, mas algo tem que acontecer.

Um bom desfecho é aquele que provoca o leitor, que seja capaz de criar uma espécie de desconforto, que o exija a pensar sobre o conflito. Dependendo do público, o infantil, por exemplo, pode ser interessante que o desfecho resolva o problema.

Parede com colagens de papel - Palimpsesto criativo
Imagem PixFuel/Creative Commons

Estruturalidade do conto

Todos os elementos do conto e da narrativa curta funcionam dentro de uma certa estruturalidade, que se divide em três grandes eixos, como apresentamos inicialmente.

Introdução

Esse é o melhor momento para fisgar o leitor. Se a introdução está escrita de forma burocrática, é possível que ele abandone a leitura logo no início. Então capriche.

Também é nesta parte que normalmente se apresenta o espaço, o tempo e os personagens.

Desenvolvimento

Esta seção é onde a narrativa se desenrola e prepara o leitor para o clímax, quando o protagonista se vê diante do conflito que estabelece o núcleo existencial do texto.

As ações dos personagens, que definirão como cada um é, ocorrem no desenvolvimento.

Clímax ou desfecho

É quando a narrativa dá seus encaminhamentos finais. Tende a ser, do ponto de vista da estruturalidade do conto, a menor das três seções.

Decálogo do perfeito contista – Horacio Quiroga

Este decálogo foi publicado originalmente em 1927, na Revista Babel.

1 — Crê em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov — como em Deus mesmo.

2 — Crê que tua arte é um cume inacessível, não sonhes dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.

3 — Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.

4 — Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.

5 — Não comeces a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

6 — Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: ‘Desde o rio soprava o vento frio’, não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si.

7 — Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo débil. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.

8 — Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

9 — Não escrevas sob o império da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.

10 — Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.

Oficina – O conto

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Roberton Frizero – escritor

Roberson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária. É Mestre em Letras pela PUCRS e Especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela UFRGS. Sua formação inclui bacharelado em Ciências Navais pela Escola Naval (RJ).

Seu livro de estreia,  Por que o Elvis Não Latiu?, foi agraciado pelo Prêmio CRESCER como um dos trinta melhores títulos infantis publicados no Brasil.

O romance de estreia, Longe das Aldeias, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Açorianos de Literatura e escolhido melhor livro do ano pelo Prêmio Associação Gaúcha de Escritores – AGES. Foi, por três anos consecutivos, jurado do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro – CBL.

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Roberson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária. É Mestre em Letras pela PUCRS e Especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela UFRGS. Sua formação inclui bacharelado em Ciências Navais pela Escola Naval (RJ). Seu livro de estreia, Por que o Elvis Não Latiu?, foi agraciado pelo Prêmio CRESCER como um dos trinta melhores títulos infantis publicados no Brasil. Seu romance de estreia, Longe das Aldeias, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Açorianos de Literatura e escolhido melhor livro do ano pelo Prêmio Associação Gaúcha de Escritores – AGES. Foi, por três anos consecutivos, jurado do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro – CBL.

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