Como ler literatura – A importância dos “Começos” | Parte 1

Muito livros pendurados no texto, vistos debaixo

| Este texto compõe um decálogo de dicas e sugestões de aprimoramento da leitura, crítica e produção literária. Os textos têm como base o livro Como ler literatura (L&PM, 2019), de Terry Eagleton |

Em literatura a importância dos “começos” é crucial para criar um vínculo com o leitor e fisgá-lo para a sua obra. E isso é fundamental não somente na relação entre leitor e escritor, mas, também, com um tipo específico de leitor: o crítico literário.

Uma boa primeira impressão, logo no início de um livro é algo que sempre vai favorecer uma leitura mais aberta e favorável do seu interlocutor. Neste texto e no próximo – a “Parte 2” – apresentaremos alguns “começos” marcantes da literatura ocidental, oferecendo algumas chaves de leitura que podem ajudar você a aprimorar a forma como ler literatura.


Como ler literatura?

Ler literatura com prazer e atenção técnica implica perceber o que vai além da compreensão imediata. Isso é importante não somente para quem pretende escrever crítica literária, mas inclusive para quem deseja se tornar um escritor ou mesmo aprimorar a escrita criativa.

Aprender como ler literatura, de uma forma mais profunda, é algo que está longe de ser óbvio. Em primeiro lugar implica ter algum repertório. Isto significa que a leitura de um texto literário – seja ele ficcional ou não – sempre será mais rica quanto mais variada é nossa bagagem.

Nessa mochila se pode levar muita coisa, desde a leituras de livros e contos até produtos bastante comuns da cultura popular urbana (assistir televonela ou webséries, por exemplo) ou rural (ouvir repente, modas de viola, festa do boi bumbá).

Nossa discussão tem como foco os textos literários. Se você quiser, porém, aplicar algumas das técnicas que apresentaremos em produtos audiovisuais, a sua série preferida, por exemplo, fique à vontade, o importante é exercitarmos nossa atenção mais profunda.

Pessoa lendo livro sobre a mesa
Imagem: Pxfuel / CC

Questões importantes para uma leitura atenta

Cada leitor pode desenvolver sua própria metodologia de análise, contudo apresentamos algumas sugestões de questões de fundo que podem ajudar em uma leitura mais atenta.

  • Os juízos do texto, livro, conto ou poesia são coerentes ou ambíguos?
  • Quais são as imagens, as cenas, que o livro produz? Que mundo ele conforma?
  • Qual a estrutura narrativa do romance ou conto?
  • A forma como o texto é narrado reforça ou atenua nossos sentimentos em relação aos personagens?
  • Como o que é dito está sendo dito?

“No princípio…” assim se começa um mito de origem

Já que estamos falando de começo, que tal começar pelo mais famoso livro do mundo. “No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Assim começa o primeiro versículo, do primeiro capítulo, do primeiro livro do pentateuco, o Gênesis.

Como nosso objetivo não é discutir questões teológicas ou religiosas atinentes à Bíblia, vamos debater esta brevíssima passagem como o mito de origem judaico-cristão.

Estamos tão acostumados a esta expressão que nem damos o devido valor literário (que consiste em perceber como é dito o que é dito) a esta breve sentença. Como sublinha Eagleton sua riqueza consiste na inversão de perspectiva que ela traz.

O livro do Gênesis vê o ato divino da criação como extrair ordem do caos. De início, as coisas eram escuras e vazias, mas então Deus lhes deu forma e substância. Nesse sentido, a história inverte a sequência usual de uma narrativa. Inúmeras narrativas começam com alguma aparência de ordem, que depois é perturbada de alguma maneira. Se não houvesse nenhum abalo ou deslocamento, a história nunca decolaria.

(EAGLETON, p. 28)

Isso tem um pouco a ver com a transformação do personagem, que tratamos há algumas semanas. Isso porque o fascinante de qualquer texto ficcional são as reviravoltas que a história dá e como isso reorganiza a forma como compreendemos os personagens e o tema em discussão.


Montanhas verdejantes com sol laranja ao fundo
Imagem: Zoom / CC

Começos de textos com ritmo e impacto

Já que nesta primeira parte estamos debatendo a riqueza de passagens do texto bíblico, vale lembrar outro fascinante começo, mas desta vez do novo testamento, no Evangelho de João. “No princípio estava o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.

Terry Eagleton ao jogar seu olhar de crítico literário sobre o texto observa algumas simetrias poéticas bastante interessantes, mesmo se tratando de um texto em prosa. As duas primeiras orações são compostas por cinco palavras.

O ritmo simétrico deste começo, é quebrado na terceira parte da frase, quando aparece a formulação “o Verbo era Deus”. Mas esta estratégia narrativa tem uma função semântica, isto é, impacta no modo como produzimos significado.

… recebemos o abrupto “o Verbo era Deus”. É como se a linha sacrificasse seu equilíbrio rítmico à força dessa revelação. As duas primeiras orações desembocam num anúncio conciso, direto, enfático, que parece não aceitar discussão. Em termos sintáticos, a frase termina com uma espécie de abandono, frustrando nossa expectativa de algum floreio retórico final. Em termos semânticos (sendo a semântica referente a questões de significado), porém, sua conclusão condensa uma tremenda energia.

(EAGLETON, p. 29)

Bem, esta é só a primeira parte do Como ler literatura – A importância dos “Começos”. Na próxima semana apresentaremos outras obras da literatura ocidental, ampliando este debate sobre os começos.

Até semana que vem!


Como ler literatura – Terry Eagleton

Capa do livro de Terry Eagleton, Como ler literatura
Capa do livro de Terry Eagleton, Como ler literatura

SINOPSE: A maioria dos livros introdutórios sobre teoria ou análise literária comete o mesmo pecado capital: tentar normatizar e prender numa grade de critérios fixos algo que é de uma riqueza vastíssima, viva, subjetiva e variável, como são as grandes obras da literatura. Terry Eagleton, professor e crítico de larga experiência, autor de Teoria da literatura: uma introdução (até hoje uma das grandes referências na área), não incorre nesse erro. Em Como ler literatura, embora seja uma obra introdutória, vemos que o autor não apenas conhece muito bem sua matéria, como tem sensibilidade suficiente para não matar o objeto de estudo ao dissecá-lo.


Clube de criação literária

Clube de Criação Literária é uma dessas ações de mecenato coletivo – neste caso, em favor do escritor e tradutor Robertson Frizero. Mas, como o próprio nome sugere, é uma ação de mecenato que traz, também, uma ideia inovadora no campo da formação continuada em Escrita Criativa.

Associando-se ao Clube, o participante colabora com o mecenato coletivo e tem acesso a conteúdo exclusivo sobre Criação Literária:

  • Material didáticoartigos resenhas de livros de interesse na área de Criação Literária;
  • Reuniões on-line e debates sobre Criação LiteráriaLiteratura Mercado Editorial;
  • Vídeos, áudios, apresentações e sessões de mentoria literária em grupo;
  • Sorteios mensais de livros e serviços de mentoria literária individual e leitura crítica.

Desafio de literatura 2021: envie suas resenhas e ganhe prêmios

Conhece o Desafio de literatura 2021 do site Frizero? Você pode publicar sua resenha literária em nossa página e de quebra ganhar o livro  Dostoiévski – Correspondências (1838-1880), do escritor russo que completa duzentos anos de nascimento em 2021. A edição foi traduzida por Robertson Frizero.

Como devo escrever e enviar minha resenha

No mês de setembro, o desafio é ler um Um livro de autor brasileiro lançado de forma independente.

Para participar basta enviar seu texto para sitefrizero@gmail.com com o assunto [DESAFIO DE LITERATURA – NOME DO PARTICIPANTE].

Lembre-se deixar no formato .doc com a seguinte formatação: Times New Roman, 12, espaçamento 1.5, título e autor no nome do arquivo.

Caso sua resenha seja escolhida para publicação, você receberá um e-mail solicitando dados para o recebimento da premiação.

Robertson Frizero

Retrato de Robertson Frizero
Robertson Frizero

Robertson Frizero é escritor, tradutor e professor de Criação Literária. Sua primeira oficina foi lançada em 2011, e desde então se manteve em atividade contínua, entre oficinas, cursos, palestras e mentorias literárias. Foi jurado do Prêmio Jabuti de Literatura por três anos consecutivos e jurado do Prêmio Açorianos de Literatura. É Mestre em Letras pela PUCRS e especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela UFRGS.

Frizero é autor de romances e livros infantis premiados, e já publicou também poesia, contos e textos teatrais. Seu livro de estreia, o infantil Por que o Elvis Não Latiu? [8INVERSO, 2010], foi agraciado com o Prêmio Crescer. Seu romance de estreia, Longe das Aldeias [Dublinense, 2015], ganhou o Prêmio AGES de melhor romance do ano pela Associação Gaúcha de Escritores – AGES e foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Açorianos de LiteraturaLonge das Aldeias foi também escolhido pelo Governo Federal para distribuição à Rede Pública de Ensino no PNDL Literário 2018. Em 2020, Longe das Aldeias foi traduzido para o árabe e publicado no Kuwait e Iraque, com distribuição para todo o mundo árabe.


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