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O pulo do gato, a escolha das palavras - Robertson Frizero

Robertson Frizero

Escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária

Muitos aspirantes a escritor têm seu foco voltado para a história – e ignoram a importância de aprimorar seus textos. Outros, já mais conscientes do ofício de escrever, preocupam-se com a composição das frases e a fluidez do texto. Mas você já parou para pensar em como é essencial para a Literatura – e para a escrita em geral – a escolha das palavras?

Não é à toa que Francine Prose, romancista e reconhecida professora de Criação Literária nos EUA, diz que “as palavras são a matéria-prima da qual é feita a Literatura”. É nelas que reside o sentido e com elas construímos nossa mensagem para o leitor. Elas são nossa matéria-prima: usamos as palavras da mesma forma que compositores usam as notas musicais e pintores usam as tintas. A escolha vocabular, por conta disso, jamais pode ser aleatória ou descuidada.

Você já parou para imaginar que não existem sinônimos perfeitos? Cada palavra carrega em si muito mais que seu mero significado registrado no dicionário: ela traz também nuances de sentido, bem como traços de regionalidade, de época, de classe social ou profissional, de ironia e de dramaticidade. Até mesmo o tom do texto pode ser definido através de nossas opções entre estas ou aquelas palavras.

Sempre uso com meus alunos alguns exemplos que clarificam bastante essa questão da escolha vocabular. Imagine que você está lendo uma história e encontra este diálogo:

– Quem é aquele senhor?

– É meu pai.

– Parece mesmo com você.

– Não me acho parecido com ele.

Da forma como está escrito, o diálogo não passa muito sobre as emoções e intenções dos falantes. Experimente agora mudar a palavra “pai” na segunda fala por uma dessas expressões – papai, painho, progenitor. O que você observará?

  • Ao mudarmos de “pai” para “papai”, o diálogo ganha um caráter carinhoso e dá-nos a entender que há uma relação amigável entre o filho/filha e o pai;
  • Ao mudarmos de “pai” para “painho”, não só carregamos o texto com o mesmo caráter carinhoso, como também damos um traço regional para a história – o filho/filha e o pai provavelmente são do Nordeste brasileiro, onde essa forma carinhosa de tratamento é mais comum;
  • Ao mudarmos de “pai” para “progenitor”, o tom do texto muda, o caráter é outro, pois “progenitor” é uma palavra que se costuma usar em contextos mais neutros e isentos de emoção, como na linguagem jurídica, por exemplo. Se colocamos um filho/filha chamando o próprio “pai” de progenitor, sugerimos ao leitor que a relação deles é distante e certamente o filho/filha não considera que aquele homem teve um papel em sua vida além daquele de reprodutor…

Costumo comentar muito sobre escolha vocabular quando tratamos de diálogos em ficção. Muitos escritores pensam nos incisos dos diálogos apenas para localizar o leitor e indicar quem está a falar. Por isso, usam os verbos “falar”, “dizer”, “perguntar” e “responder” sem se dar conta de que eles são verbos “óbvios”, ou seja, não passam nenhuma informação adicional ao ato de falar:

– Quem é a mulher, afinal? – O sogro perguntou.

– Por favor, não queira saber… Chega de perguntas…

– Diga logo quem é ela, Camilo!

– Cristina, diabos! – Camilo disse. – É Cristina!

Agora, imagine que o autor queira enriquecer o diálogo e substituir os verbos “perguntar” e “dizer” por outros verbos mais ricos em significado? Faça esse teste:

  • veja os verbos constantes no quadro abaixo. Busque entender que informações a mais eles trazem – “sussurrar” sugere segredo; “choramingar” envolve uma tristeza infantilizada; “arguir” é perguntar enfaticamente; etc.
  • depois, mude os verbos do diálogo por outros verbos escolhidos no quadro. Que novas informações o leitor pode deduzir agora sobre o tom do texto, a relação entre as personagens, a história oculta?

Mas, é sempre bom lembrar: precisão vocabular não é simplesmente tirar a palavra com o significado perfeito do vocabulário e colocá-la em um texto. É preciso analisar como ela se aplica naquele contexto, naquela história, naquela época e lugar. Sérgio Toledo, lembrando uma ocasião em que uma leitora censurou-o por não ter usado, em um conto, uma palavra específica que designa as máscaras carnavalescas venezianas, afirmou:

“Ser preciso não é encontrar a palavra justa em abstrato. É encontrar a palavra justa para aquela situação. É possível ser preciso com um vocabulário de 3 mil palavras e impreciso manejando 30 mil.”

De fato, naquele conto em questão, a personagem, uma senhora idosa e de origem simples, não conheceria o vocabulário preciso para se referir à tal máscara. Por isso, naquele caso a precisão vocabular era justamente buscar a palavra certa para o contexto certo. O grande autor italiano Cesare Pavese disse, com muita propriedade, sobre a escolha de imagens e palavras em Literatura:

O narrador de uma história ambientada numa aldeia atrasada da Itália fala da lua “amarela como polenta”.
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Roberson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária. É Mestre em Letras pela PUCRS e Especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela UFRGS. Sua formação inclui bacharelado em Ciências Navais pela Escola Naval (RJ). Seu livro de estreia, Por que o Elvis Não Latiu?, foi agraciado pelo Prêmio CRESCER como um dos trinta melhores títulos infantis publicados no Brasil. Seu romance de estreia, Longe das Aldeias, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Açorianos de Literatura e escolhido melhor livro do ano pelo Prêmio Associação Gaúcha de Escritores – AGES. Foi, por três anos consecutivos, jurado do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro – CBL.

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