O pai que nos protege, por Luiz Gonzaga Lopes

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Entrevista

30 de abril de 2015

“Da mesma forma, aprendi pela experiência que há muitos modos de ler um romance. Às vezes, lemos logicamente; às vezes, com os olhos; às vezes, com a imaginação; às vezes, com uma pequena parte do cérebro; às vezes, como queremos; às vezes, como o livro quer; e, às vezes, com todas as fibras do nosso ser”

ORHAN PAMUK, O Romancista Ingênuo e o Sentimental

 

Por Luiz Gonzaga Lopes

Como se constrói uma memória sobre quem nunca existiu fisicamente? Quem é o pai que nos protege? Como três mulheres podem ajudar um jovem a reconstruir a sua identidade geracional masculina? Quais traumas de guerra podem atravessar e estilhaçar futuras gerações? Não há perguntas suficientes que possam indagar a um escritor qualquer sobre uma obra que reconstrói a identidade de um jovem pela busca ao pai, não conhecido e talvez nem tão existente, por meio das três mulheres de sua vida, a mãe, a tia e a namorada. Emanuel, Deus conosco, mas podia ser Teófilo, amigo de Deus. O deus da busca pela verdade da guerra, do genocídio, da submissão de um povo por outro e os ecos desta barbárie nos que ficaram, nos que sobreviveram a tudo. “Longe das Aldeias” (Terceiro Selo, www.terceiroselo.com.br) é a estreia do excelente tradutor (vide Autobiografia de um Ex-Negro, de James Weldon Johnson, 8Inverso), dramaturgo, professor de oficinas literárias e bela pessoa, diga-se de passagem, Robertson Frizero, na narrativa longa(…).

Romances ou novelas são desventuras. São histórias contadas por marinheiros viajantes ou camponeses sedentários (tal qual Benjamin apregoa em sua teoria do narrador). São desventuras com pronomes pessoais, por vezes oblíquos, em tempos verbais passados a limpo, que requerem mergulho, imersão total nas profundezas da alma humana. O rasante de Frizero chega lá. É voo certeiro. Peixe na boca do pássaro. O nobel turco Orhan Pamuk já joga tintas, talvez à maneira action de Jackson Pollock, sobre a diferença do romance em relação a outros gêneros literários em seu “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), do qual retirei a epígrafe para este texto: “De quando em quando, um romance pode proporcionar os mesmos prazeres que uma biografia, um filme, um poema, um quadro ou um conto de fadas. No entanto, o efeito singular e verdadeiro dessa arte é fundamentalmente diferente de outros gêneros literários, do filme, do quadro. E talvez eu possa começar a mostrar essa diferença falando sobre as coisas que eu fazia e as complexas imagens que surgiam dentro de mim quando eu lia romances apaixonadamente em minha juventude”.

 

Aos 17 anos, Emanuel poderia querer somente a curtição, a iminência de um beijo com a amiga e mais tarde namorada Madalena, mas o jovem tem uma história a resgatar, pois a mãe Marija está doente, o mal do esquecimento, ou da obliteração diante da dor irrefutável vivida na guerra. Ele quer desfazer um passado de mentira e de ilusão a respeito da identidade do pai, Josif. As memórias, trazidas pela tia Mirna, percorrem os horrores da guerra, a fuga da aldeia e do país, a reconstrução da família num país que aceita todas as histórias, coração de mãe ou fusca, como dizíamos nos anos 1960 e 70. A mãe Marija não consegue recompor o painel identitário de Emanuel. Os três “emes” das mulheres do jovem seriam da Memória: Mirna, Marija e Madalena. As peças do quebra-cabeça estão dispostas de forma caótica e o drama cavalga pelas nuances da complexidade e da profundeza humana, que pode mentir, iludir, omitir, perdoar, seguir em frente.

 

Na orelha, está lá a conversa ao pé do ouvido do escritor e também grande persona literária Gustavo Melo Czekster, de “O Homem Despedaçado” (Dublinense, 2011), homem também do Direito, advogando pela causa de Frizero: “Uma das formas de atenuar as nossas angústias é através da literatura e, em Longe das aldeias, Robertson Frizero entrega aos seus leitores uma fábula feroz, que hipnotiza com as suas possibilidades. Impossível ficar indiferente diante de um livro que, na melhor tradição de Eça de Queirós e de Balzac, mostra a memória tanto como bálsamo quanto como veneno, revela o amor como um jogo de neblina e de espelhos e trata a vida como uma longa história repleta de reticências e de pontas soltas.” Em seu próprio livro, no conto “Resgate”, Gustavo já deu à mostra uma das sina do homem que lê e por consequência, escreve: “Todos os dias, pego um livro e leio até o fim. Procuro recordar se vivi algum episódio narrado. Não consigo. Não sei se estou recordando ou se estou me iludindo com a minha história que, de tão sedutora, evoca imagens na minha mente. Substituo o nome do personagem pelo meu…”. Tive vontade de substituir o nome de Emanuel pelo meu e buscar algo nas entranhas do meu esquecimento, à luz do livro de Frizero.

Robertson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de oficinas literárias em Porto Alegre. Mestre em Teoria da Literatura pela PUCRS, este autor teve seu livro de estreia, o infantil Por que o Elvis não latiu? (8Inverso, 2010), indicado como um dos 30 melhores títulos do ano pela Revista Crescer e também foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura (2011). Só para finalizar, creio que conversamos duas ou três vezes, mas em uma destas vezes me impressionei muito por me achar entre pares. Fui ver o espetáculo “Incêndios”, com Marieta Severo, direção de Aderbal Freire Filho, e lá estava Frizero com o livro do libanês radicado no Canadá, Wajdi Mouawad, fazendo o seu dever de casa no teatro, comparando frente a frente as duas formas de narrativa, deveria ter visto algumas vezes o filme de Denis Villeneuve. Há um pouco de “Incêndios” em “Longe das Aldeias”. Há muito da vida, da reconstrução de memórias, da busca por respostas. Frizero segue indagando. E nos premiando com um livro digno de tantos escritores profundos e investigadores da alma humana, como os russos (Tchekhov e Dostoievsky), os franceses (Flaubert e Balzac) ou os argentinos (Cortázar e Borges), só para citar alguns. Celebre-se o livro. Celebre-se o autor.

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