Autobiografia de um Ex-Negro, por Marcelo Spalding

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Entrevista

1 de novembro de 2011

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Por Marcelo Spalding

O baú de histórias da literatura universal é amplo, imenso, infinito, e não temos noção do quanto há por conhecer, desvendar. Especialmente para nós, brasileiros leitores do português, língua de muita tradição e pouco poder, para a qual muitos desses tesouros literários sequer foram traduzidos. Um deles, Autobiografia de um ex-negro, romance do norte-americano James Weldon Johnson publicado na terra de Obama em 1912, só agora, quase um século depois, chega ao público brasileiro, numa impecável edição da gaúcha 8Inverso, com tradução de Robertson Frizero.

A obra é apresentada como primeiro romance da literatura norte-americana escrita em primeira pessoa, tendo servido de inspiração para diversos autores importantes daquele país, e o autor é hoje reconhecido pela sua atuação como ativista dos direitos civis dos negros e pesquisador da história e cultura afro-americana. À época do lançamento, a obra causou certo alvoroço por tentar se passar por um relato não-ficcional, causando nos seus contemporâneos a suspeita de que algum dos seus respeitados cidadãos era na verdade um “homem de cor disfarçado”. Só na segunda edição, em 1927, quando o livro foi publicado com o nome do autor e revelou se tratar de uma ficção é que a obra alcançou o merecido sucesso.

Hoje, mais de um século depois, podemos ler a obra tanto como um documento da luta por reconhecimento dos afro-americanos – aparentemente coroada com a eleição de Barack Obama, mas ainda conflitante, como se percebe nas representações ficcionais dos negros –, quanto uma peça de ficção literária, com seus erros e acertos.

Enquanto documento, o romance é precioso por evitar o maniqueísmo e o panfletário. Narra com riqueza de detalhes a formação de um jovem mulato que tanto poderia se passar por branco quanto identificar-se com os negros, e descreve com deliciosa minúcia o trabalho no tabaco no Sul dos EUA, os bares da noite nova-iorquina, onde surge o ragtime, entre outros. Tudo visto pelo olhar de um narrador em primeira pessoa, consciente de seu papel social e do conflito que o cerca, tentando através do próprio discurso racionalizar tal conflito:

“Creio que os brancos, por algum motivo, sentem que as pessoas de cor que têm educação e dinheiro, vestem-se bem e vivem em casa confortáveis estão ‘se exibindo’ e fazendo essas coisas com o único propósito de ‘cuspir nos brancos’ – ou, na melhor das hipóteses, macaqueá-los. É certo que tais sentimentos só podem gerar irritação ou descontentamento. Parece que os brancos ainda não compreenderam: essas pessoas, lutando para melhorar seu ambiente social e sua aparência de acordo com seu progresso material e intelectual, estão simplesmente obedecendo a um umpulso comum ao ser humano em toda parte.”

Já como romance a obra começa com grande fôlego, lembrando algo do excelente As Aventuas de Tom Sawer (1876), de Mark Twain, mas perde um pouco do seu ritmo até enfraquecer com um final sumarizado. Aliás, o próprio Johnson comenta sobre a questão do ritmo romanesco ao falar da Bíblia: “Minha primeira impressão da Bíblia foi a mesma última impressão que tenho de uma série de livros contemporâneos: o autor colocou seus melhores esforços na primeira parte, e ficou cansado ou descuidado da metade para o final.”

É importante notar, porém, que é a opção pela forma romanesca que permite ao narrador uma liberdade de ação e pensamento impossíveis para seu autor, no caso de realmente tratar-se de uma biografia não-ficcional: “Perguntei ao meu companheiro se todas as pessoas de cor em Atlanta viviam naquela rua. Ele disse que não, e assegurou-me que ali eu via apenas os de classe maisbaixa. Senti certo alívio, apesar do grande número de pessoas. A aparência desgrenhada, o andar arrastado e torto, a fala gritda e a gargalhada farta dessas pessoas causavam em mim um sentimento de quase repulsa.”

Assim, a mestiçagem racial do narrador ecoa na mestiçagem de gêneros textuais, criando um híbrido que dá potência narrativa ao texto sem tirar sua capacidade de reflexão e argumentação: “Eu havia aprendido que essa habilidade para rir com vontade era, em parte, a salvação do negro americano; em grande parte, foi o que o livrou de ter o mesmo destino que os índios.”

Para finalizar, uma ou duas linhas sobre a qualidade da edição: capa-dura, apêndices que ajudam a contextualizar a obra que estamos lendo e notas precisas do tradutor. Frizero, aliás, já havia traduzido com exclusividade cartas de Dostoievski, também para a 8Inverso, e a manter-se nessa linha tradutor e editora contribuirão, e muito, para tirar do baú da literatura muitas outras preciosidades.

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