Da leitura de superfície à estrutura do texto na escrita criativa

Livros em perspectiva na estante

Para escrever bem ficção convém ler bem ficção. Mas o que isso significa? Pretendemos responder estar questão nos parágrafos seguintes, passando da leitura de superfície à estrutura do texto na escrita criativa.

Apresentaremos a seguir os níveis de leitura de um texto. Depois vamos em direção à estrutura profunda da narrativa e apresentamos um exercício de leitura profunda.


Níveis de leitura de um texto

Em primeiro lugar é importante destacar que se pode ler e investigar um texto a partir de vários níveis de leitura. Neste texto, apresentaremos uma divisão em três níveis de observação que são ótimos para começar a aprofundar a leitura.

O primeiro deles corresponde à estrutura superficial, que é onde se passam os significados mais concretos do texto. Isto é, onde aparece o narrador, os personagens, as descrições e as ações dos envolvidos.

O seguinte nível de leitura corresponde à estrutura intermediária, que diz respeito aos valores com que os personagens se colocam na narrativa. É por causa deste nível de leitura que nos posicionamos a favor ou contra as personagens.

O terceiro nível é o da estrutura profunda. É quando conseguimos perceber, ao longo dos textos, quais são os conflitos que nos preparam para entender o clímax da narrativa, trazendo à consciência qual debate a obra propõe, como, por exemplo, a questão da pena de morte em A aposta de Anton Tchekov.  


Imagem PxHere

O que é a estrutura profunda do texto?

A estrutura profunda de um texto corresponde às oposições que vão se constituindo ao longo da narrativa e que dão significado ético às ações dos personagens. Isso fica implícito nos dilemas a serem enfrentados.

O valor de um texto, no entanto, não está, necessariamente, na descoberta de sua estrutura profunda, mas a possibilidade de encontrá-la e descortiná-la traz novas cores à leitura.

Vejamos um exemplo em um breve texto de Monteiro Lobato.


O galo que logrou a raposa, um exercício de leitura profunda

O texto é de Monteiro Lobato, publicado na obra Fábulas.

O galo que logrou a raposa

Um velho galo matreiro, percebendo a aproximação da raposa, empoleirou-se numa árvore. A raposa, desapontada, murmurou consigo: “…Deixa estar, seu malandro, que já te curo!…” E em voz alta:

Amigo, venho contar uma grande novidade: acabou-se a guerra entre os animais. Lobo e cordeiro, gavião e pinto, onça e veado, raposa e galinha, todos os bichos andam agora aos beijos, como namorados. Desça desses poleiros e venha receber o meu abraço de paz e amor.

Muito bem! – exclamou o galo – Não imagina como tal notícia me alegra! Que beleza vai ficar o mundo, limpo de guerras, crueldades e traições! Vou já descer para abraçar a amiga raposa, mas… como lá vem vindo três cachorros, acho bom esperá-los, para que eles também tomem parte da confraternização.

Ao ouvir falar em cachorros, dona raposa não quis saber de histórias, e tratou de pôr-se a fresco, dizendo:

Infelizmente, amigo Có-ri-có-có, tenho pressa e não posso esperar pelos amigos cães. Fica para outra vez a festa, sim? Até logo! – E rapou-se.

Com esperteza, esperteza e meia.

Neste astuto texto O galo que logrou a raposa de Monteiro Lobato fica claro todos os níveis de leitura. O superficial, manifesto na posição de defesa que o galo adota em relação à raposa, e na tentativa e, depois, desistência da raposa em fazer o galo descer do puleiro.

No segundo nível fica claro que o galo entende que, na verdade, há uma guerra entre os animais e que as posturas de ambos são fingimentos.

Na estrutura profunda, terceiro nível portanto, estão os significados mais abstratos, mas, ao mesmo tempo, os que elucidam a questão de fundo. Isto é, há uma “guerra” entre os animais que media as relações, apesar de a leitura superficial sugerir que se está em momento de pacificação.


Para que serve a leitura profunda de um texto?

Se você pensou em qualquer resposta que tenha a ver com erudição, sinto muito informar, mas está equivocado.

O mais importante de exercitarmos outros níveis de leitura tem a ver com a ampliação de nosso repertório estratégico para contar histórias. Quanto mais aprimorarmos nossa leitura, mais ferramentas teremos para melhorar nossa escrita.

Que tal retomar aquele conto que você já leu mil vezes mas continua adorando e destrinchar seus níveis profundos de leitura? Acredite, pode ser um ótimo exercício.


Dica de livro: Para entender o texto. Leitura e redação – Platão e Fiorin

Este texto teve como inspiração a obra Para entender o texto. Leitura e redação – Platão e Fiorin, que apresentamos abaixo.

SINOPSE: Para entender o texto – leitura e redação’ é a resposta ao desafio de interpretar e escrever textos com eficiência. Esse livro pretende permitir ao aluno aprimorar a escrita e perceber a existência de múltiplos significados e intenções nos textos. Em cada lição, os autores comentam textos dos mais variados gêneros (como trechos de Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Caetano Veloso, entre outros). Há ainda exercícios e propostas de redação.


Roberton Frizero – escritor

Roberson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária. É Mestre em Letras pela PUCRS e Especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela UFRGS. Sua formação inclui bacharelado em Ciências Navais pela Escola Naval (RJ).

Seu livro de estreia,  Por que o Elvis Não Latiu?, foi agraciado pelo Prêmio CRESCER como um dos trinta melhores títulos infantis publicados no Brasil.

O romance de estreia, Longe das Aldeias, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Açorianos de Literatura e escolhido melhor livro do ano pelo Prêmio Associação Gaúcha de Escritores – AGES. Foi, por três anos consecutivos, jurado do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro – CBL.


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4 Replies to “Da leitura de superfície à estrutura do texto na escrita criativa”

  1. […] Da leitura de superfície à estrutura do texto na escrita criativa […]

  2. […] implica dizer que tudo o que o personagem faz tem uma razão de ser. Esta razão, obviamente, é de natureza literária. Isto é, tem que corresponder às lógicas da […]

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